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domingo, 5 de junho de 2011

Desafios para novas pautas na Comunicação, Ciência e Politica

Entrevista a Liliana Peixinho
27/05/11

Desafios para novas pautas na Comunicação, Ciência e Polîtica

 Por: Joseanne Guedes

 Jornalista e pesquisadora independente, a ativista ambiental Liliana Peixinho fala sobre as novas pautas da Comunicação e Sustentabilidade, baseada no que ela chama de “Cadeias Produtivas Sustentáveis/Harmoniosas de Ponta a Ponta”.
 A fundadora do movimento Amigos do Meio Ambiente (AMA) e da RAMA – Rede de Articulação e Mobilização Ambiental, revela os desafios encontrados pelos jornalistas na cobertura das pautas científicas; mostra as dificuldades do mercado em aliar interesses empresariais com a questão ambiental; destaca o papel da Academia, da Ciência e de cada um de nós, na construção de um novo modelo de Vida.

 JOSEANNE GUEDES - De que maneira o jornalista pode dar vazão à pesquisa científica sem incorrer em equívocos ou, até mesmo, parecer mera reprodução do discurso científico? Liliana Peixinho - Estabelecendo com a fonte uma relação de exigência e transparência, para socializar boas informações em nome da garantia da Vida, com qualidade.
Não esconder informações ou publicá-las, como um papagaio, sem o questionamento necessário ao trabalho de qualquer jornalista sério: saber apurar e contextualizar. Perceber, investigar e denunciar o lado podre, que envergonha, descredibiliza e empobrece, a própria Academia. JG - Como jornalista, de que forma os seus textos, publicados em diversas mídias especializadas, como Agencia Envolverde, Rebia, Mundo Sustentável, Mídia Etica, entre outras, podem contribuir para a reflexão e questionamento sobre as relações do homem com a natureza?

 LILIANA PEIXINHO - A pauta ambiental mudou muito, nas ultimas décadas, e está a nos exigir uma visão de mundo profunda sobre o que é preciso para preservar a Vida, com a qualidade e prazer que merecemos. Assim, em meus textos procuro dar atenção a pequenos e importantes detalhes.
Considero importante não reproduzir modelos de comportamento que reforcem a ação humana perversa, degradadora, consumista/impulsiva, pois nessa visão profunda, transversalizada, conectada com os problemas que estamos a combater, precisamos estar atentos às soluções, que existem, e só precisam ser realizadas.

Isso exige esforço, trabalho, mudança de comportamento, sacrifícios, civilidade. E a informação direcionada a essa mudanças é o único instrumento possível para construímos o que chamo de Cadeias Produtivas Sustentáveis de Ponta a Ponta, ou seja, produtor e consumidor sintonizados com as limitações e exigências da grande matriz: Natureza.
Esse não é um discurso que separa Economia de Política, Política de Cultura, Cultura de Comportamento, Comportamento de Natureza, Natureza de Homem. Todos estão muito juntos, numa teia de conexões com “vias de mão dupla”, como diz o Vilmar Berna, da Rebia. Veja como os anúncios publicitários exploram bem a estética da Natureza bela, para seduzir e enganar: Entre o que é dito e o que, de fato, está sendo feito, tem muitas mentiras e erros.

Expressões como sustentável, por exemplo, perde seu valor quando constatamos que no Brasil o Congresso Nacional acabou de aprovar um Código Florestal onde o agronegócio, que pinta nossas florestas de branco, com a boiada nos pastos, e a monocultura de soja, por exemplo, é prioridade para o saldo da balança comercial, e commodities levam nossas riquezas em troca do lixo dos produtos chineses, que invadem nossas casas, de norte a sul.
Nesse modelo os desafios aumentam/complicam para as futuras gerações.

JG - De que maneira você atua na área? Como é o seu trabalho como jornalista, ativista na área socioambiental?

LP - Minha atuação é livre e colaboro com diversas mídias especializadas em Comunicação e Sustentabilidade.
A idéia é construir novos caminhos para a pauta de Sustentabilidade na Bahia, no Nordeste, no Brasil. Depois que voltei da Europa, onde fiz vários contatos com movimentos socioambientais, criei os Movimentos AMA (Amigos do Meio Ambiente) e a RAMA (Rede de Articulação e Mobilização Ambiental) que têm esse papel de difundir a informação nas redes sociais, nas palestras e oficinas Brasil afora, para que a gente possa refletir sobre o lugar do jornalista nessa pauta, que a cada dia se revela mais desafiadora. Entre as redes estão a REBIA, RBJA, REBEA, uma das integrantes do Comitê Facilitador da Sociedade Civil Brasileira para a Rio+20.

Estamos dando apoio, divulgando e participando de ações que possam fortalecer o evento onde vamos apresentar propostas para as ações junto às organizações da sociedade civil e movimentos sociais e populares de todo o Brasil e do mundo até junho de 2012. Está sendo chamado de Cúpula dos Povos da Rio+20 por Justiça Social e Ambiental, e é paralelo à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (UNCSD).

Entre as propostas do AMA e da RAMA estão as campanhas: SEJA UM AMIGO DO MEIO AMBIENTE - CONSUMA CONSCIENTE, AGENDA DOMESTICA AMBIENTAL, Pacto das donas de casa, empresas e instituições para coleta seletiva/produtiva em apoio ao catador, como ação proativa para o Consumo Consciente, Adoção da Cultura dos 7Rs - Racionalizar, Reduzir, Repensar, Recriar, Reaproveitar, Repartir, Revolucionar e Desperdício Zero = Lixo Zero = Saneamento Dez = Saúde Mil . Todas com agregação em aproveitamento integral de alimentos para segurança alimentar, cultura de prevenção e construção de cadeias produtivas sustentáveis de ponta a ponta, para o comércio justo, contra a exploração do trabalho, pela valorização de potencial rural, com inclusão social e bem viver em harmonia com a matriz mãe: Natureza.

 JG - E na Academia, quais são suas propostas?

LP - Minhas ações, trabalhos, pesquisas, são direcionadas para novas pautas socioambientais. Na Faculdade de Comunicação da UFBA, todos os meus estudos são voltados para COMUNICÃO E MEIO AMBIENTE, alguns com foco especial em comunidades tradicionais, no resgate e valorização dessas culturas como base de preservação da nossa ainda, mega Biodiversidade. Percebo uma grande desconexão política e empresarial e mesmo comunitária na valorização de territórios indígenas, quilombolas, fundos de pasto, artesãos, pescadores, agricultores familiares, base da identidade brasileira O olhar estar sempre voltado para a reversão da miséria e injustiça social, já que pesquisas dão conta que sete bilhões de seres humanos vivem hoje as sequelas da maior crise capitalista desde a de 1929.
Problemas muito sérios como desproporção e desigualdade social, com pobreza extrema. Reflexo de um sistema de produção, puxado pela Revolução Industrial, onde consumo desmedido, em larga escola, ficou sem questionamentos, impulsionada, imposto mesmo, de forma perversa, pelas grandes corporações, mercados financeiros e políticas paradoxais, desconexas com a realidade da maioria, que ainda é pobre. Governos asseguram a manutenção de um sistema injusto, excludente, violento. Nessa linha, produzi trabalhos como Protagonismo Indígena Sustentável x Discurso Político Marketeiro, Reforço Midiático do Discurso Governamental da Política de C&T, Discurso Político da Saúde Pública Brasileira e Revelações da Mídia sobre Descasos e Mortes Cotidianas, entre outros, sempre voltados para as novas pautas ambientais.

JG - Qual foi a pauta mais difícil que você já realizou na cobertura de C&T?

LP - Penso que não existe pauta difícil ou fácil, existem perguntas e respostas conectadas, ou não, com os interesses e necessidades dos cidadãos comuns. Se formos críticos, éticos e comprometidos com as mudanças que a Ciência pode favorecer para melhorar a Vida neste planeta, sedento de cuidados, qualquer que seja a pauta saberemos conduzi-la junto às fontes para extrair o que de melhor a pesquisa descobriu em favor da Vida, com qualidade, equidade e justiça. Mas, tenho dificuldade em extrair dos pesquisadores, de forma geral, respostas sobre por que a Ciência anda tão distante da melhoria da qualidade da vida da maior parte dos habitantes da Terra. Isso incomoda a Academia. JG - Como funcionam as pressões nas redações em relação à cobertura de assuntos polêmicos? Como aliar interesses empresariais com a questão ambiental?

LP - Quem segura o jornal é a publicidade. Quando algum conteúdo jornalístico não corresponde aos interesses de grupos políticos, empresariais que anunciam no veículo, a coisa complica. Mas, o caminho está sendo construído. Há jornalismos que conseguem driblar, de uma maneira sutil. É óbvio que os interesses empresariais divergem das prioridades da pauta ambiental. A sustentabilidade é visível apenas no discurso. Na prática, as empresas depredam o meio ambiente, e “compensam” com algum projeto social. No entanto, aliar esses interesses com a questão ambiental é perfeitamente possível quando o jornalista tem o compromisso de apurar se o que está sendo dito equivale à realidade do que está ou não sendo realizado.

JG - Como priorizar a independência, a ética, a transparência e, ao mesmo, preservar seu emprego? 

LP - Muito difícil! Porque as mídias especializadas não valorizam o trabalho dos colaboradores, dos jornalistas especializados. Aqueles que se aventuram a gerir seus próprios veículos, blogs, revistas, jornais, sites, ou bancam seus projetos ou subvertem o projeto original em nome de um capital que não acompanha o mesmo ritmo, passando a ditar as regras. Mas, o caminho está sendo construído. Em outubro, dias 12, 13, 14 e 15 teremos o IV Congresso Brasileiro de Jornalistas Ambientais, e o Encontro da Red Latino-Americana de Periodismo Ambiental (REDCAL), a serem realizados no Rio de Janeiro. Organizado por jornalistas que tem compromisso com as novas pautas da sustentabilidade como Dal Marcondes, Vilmar Berna, e apoio de colegas de peso e de referência na área, como o André Trigueiro, da Globo News/Cidades e Soluções.

O evento está sendo coordenado pela RBJA - Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental, REBIA - Rede Brasileira de Informação Ambiental, Associação Brasileira de Mídias Ambientais – ECOMÍDIAS, e pelo Instituto Envolverde. Estamos trabalhando na mobilização e articulação com os colegas para divulgar o congresso como evento importante, preparatório para a Rio +20, maior evento ambiental do planeta, desde a Rio 92.

O nosso maior desafio é convencer o empresariado no apoio para a montagem de uma estrutura que mobilizara cerca de 12 mil jornalistas, estudantes, professores, especialistas e profissionais ligados à Comunicação e Sustentabilidade, numa pauta que chama a Academia e o Mercado para as mudanças que a Vida estar a exigir. Mudanças que vão requerer a aplicação de novas e limpas tecnologias. Onde a Publicidade, por exemplo, mais do que produzir e veicular lindas inserções, possam comprovar o que diz que está sendo feito. Creio nesse tipo de compromisso do jornalista/comunicador. E que as mortes de ambientalistas, que vem sendo mostradas, possam dar lugar a notícias boas. Como a abertura e valorização desse mercado.

 JG - Muitas matérias se restringem a apresentar resultados, sem contextualização, ponderação sobre riscos... Quais os maiores desafios do profissional que cobre essa área?

LP - Estudar muito, ler sobre as diversas versões, tendências, correntes da Ciência, saber identificar os grupos de interesses x, y ou z, e não querer ser um mero cumpridor de pautas como instrumento de recado do patrão para garantir um empreguinho qualquer, numa redação desconectada com o seu papel de agente social de poder. Ou, se o jornalista/comunicador tem isso claro, e se sente bem em fazer de conta que não percebe o uso de determinada informação contrária a valores e princípios que defende, ai, infelizmente, continuaremos a ter desafios históricos básicos, como o combate a fome e violência dentro da nossa própria casa.

Liliana Peixinho é Jornalista, ativista ambiental, pós-graduada em Mídia e Meio Ambiente, colaboradora de mídias ambientais como: www.envolverde,com.br www.rebia.org.br www.amigodomeioambiente.com.br www.folhadomeioambiente.com.br http://movimentorama.blogspot.com, www.mundosustentavel.com.br http://lilianapeixinho.blogspot.com/ E-mail: lilianapeixinho@gmail.com

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